Por: Wesley Nascimento

            Historiador e Especialista em Gestão de Empreendimentos Turísticos


A cidade de Estância, fundada em 1848, guarda em sua mística história elementos fundamentais para que possamos com orgulho dizer que somos “berço da cultura Sergipana”, “Jardim de Sergipe, “Terra do Barco de Fogo” e tantos outros codinomes que te elevam a ser a Estância que és. Daqui saíram as primeiras letras impressas através do Recopilador Sergipano, de Monsenhor Fernandes da Silveira. Os primeiros ideais republicanos também saíram daqui do interior do estado, que mais tarde, seria destaque para todo Sergipe, com o seu polo têxtil industrial, sendo a segunda fábrica de tecido do estado a Fábrica Santa Cruz, desde 1891, fundada pelo português comendador João Joaquim de Sousa, que em 1840, já fortalecia o comércio de Estância com a Casa Comercial Sousa Sobrinho &Cia. Ainda na área têxtil, temos a Fábrica Senhor do Bonfim em funcionamento até os dias atuais, e a extinta Fábrica Piauitinga, que ficaram conhecidas como Fábrica Velha, Nova e Menina, em ordem cronológica de suas fundações.

A indústria e o comércio sempre foram base para o desenvolvimento econômico da cidade, não obstante a realidade atual, “Estância, guarda em seus rios e casarios” o patrimônio inegável aos olhos dos sergipanos, de cultura secular a cidade é, sem dúvida, celeiro de intelectuais, poetas e cantadores, que muito nos honra.

Esses elementos, que fortalecem o nosso Patrimônio Material e Imaterial, e aqui ainda preservamos a maior reserva de azulejos “portugueses” do estado, de fácil visibilidade, os referidos azulejos revestem casarios seculares da rua capitão Salomão, no centro da cidade, e um casarão no antigo “pernambuquinho”, na atual rua Divaldo  Carvalho Costa, prédio este onde hoje funcionam a Escola de Artes Cênicas e a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura.

Ainda nessa redondeza é muito comum as fachadas de alguns prédios, a exemplo da antiga fábrica de Charuto Valquíria, onde funciona Ayume Centro de Treinamento. Logo mais à frente, casas e prédios vão dando vida remota ao nosso conjunto arquitetônico do centro histórico, sendo a casa comercial Pinheiro Alvelos, fundada em 1918, e um casarão de gradis e portas em linhas retas ao fundo dos correios, que pertence à família da professora Eleonora Pereira Leite.

As igrejas do Rosário e a Catedral Nossa Senhora de Guadalupe são símbolos religiosos e local de salvaguarda da fé e devoção do povo estanciano, dedicada à nossa senhora de Guadalupe devido ao fundador da cidade ser originário do México.

Afamada pelo São João, a cidade se destaca pela pirotecnia dos seus fogos, os Buscapés, Espadas e Barcos de Fogo dão luzes e cores às noites do mês de junho, e para nós, nordestinos, porque não dizer o mês de são João. Dentro dessa cadeia, os fogueteiros iniciam em dezembro a retirada do bambu para todo ritual que envolve a produção dos fogos, desde a secagem até a pisa da pólvora, daí o surgimento da dança do pisa pólvora. “A Batucada de Estância”, uma das principais manifestações populares do são João estanciano, pode-se afirmar que ela é uma das danças símbolos da nossa festa maior.

Percebe-se a resistência dessa manifestação há anos, “Batucada” advém da algazarra e folia que os fogueteiros faziam ao pisar a pólvora para fazer os fogos, dançando no ritmo de samba de coco com os tamancos estalando no chão, como se fossem cascos de coco sincronizados.

A principal característica da dança é a batida no pé ao som de rústicos instrumentos de percussão, responsáveis pelos ritmos frenéticos de raízes afros. Durante os nossos festejos juninos as batucadas saem às ruas de Estância animando as pessoas com cantos e ritmos que não há quem resista.

No artigo 216 da Constituição Federativa do Brasil, determina que o patrimônio cultural pátrio é composto por “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”, sendo constituído igualmente por suas relativas informações, a exemplo de desapropriação, tombamento, vigilância, registros e inventários, direcionando a legislação em estabelecer a penalidade por ameaças e danos a sua integridade (MARTINS, 2003).

Sendo assim, como atrativo turístico, o patrimônio pode ser visualizado em inúmeros ambientes podendo, até mesmo, estarem unificados em centros dentro dos espaços urbanos, ressaltando-se os antigos bairros em razão da existência de monumentos, prédios ou manifestações clássicas importantes para a cultura e história locais (LOBATO, 2012).

Conforme mencionado, entende-se como patrimônio cultural e histórico os bens de origem material e imaterial que demonstram ou difundem-se a identidade e a memória das comunidades e populações. Correspondem como bens culturais de importância simbólica, científica, artística e histórica, admissíveis de se colocarem como atrações turísticas: museus, ruinas, sítios arqueológicas, conjuntos urbanísticos, edificações, arquivos e diferentes locais direcionados a contemplação ou demonstração de bens imateriais e materiais, eventos como celebrações e festas, artes cênicas e visuais, gastronomia, música, dentre outros (BRASIL, 2010).

As noções de patrimônio cultural encontram-se relacionadas à memória e à lembrança, que são essenciais em relação às atuações patrimonialistas, tendo em vista que os bens culturais são conservados em razão do vínculo que conservam as identidades culturais. A noção de patrimônio histórico, decorre das extensões múltiplas da cultura como imagens de um passado vivo, fatos e coisas que necessitam ser conservados na memória e mantidos porque são significativos coletivamente em sua diversidade.

O IPHAN (2008) conceitua o patrimônio material como sendo aquele formado por bens culturais móveis e imóveis, onde na primeira situação, estão aqueles bens possíveis de transporte, a exemplo das obras de arte e dos livros, enquanto que no segundo caso, correspondem aos bens estáticos, como ruas, prédios, cidades, dentre outros, e detém ferramenta própria de proteção. Nesta direção, correspondem aos bens móveis as coleções cinematográficas, fotográficas, videográficas, arquivistas, bibliográficas, documentais, arqueológicas e museológicas, e como bens imóveis tem-se os bens individuais, sítios paisagísticos e arqueológicos, núcleos urbanos.

Para proteção do patrimônio material, tem-se o tombamento, que se caracteriza uma ação administrativa desempenhada pelo Estado com a finalidade de conservar, através do emprego de legislação própria, bens de importância ambiental, arquitetônica, cultural, histórica e igualmente de importância afetiva para a sociedade, impossibilitando que venham a ser descaracterizados ou destruídos (BRASIL, 2010).

Quanto ao patrimônio cultural imaterial, entende a Unesco (2008) ser esta uma das demonstrações “de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes”. O patrimônio imaterial, para o IPHAN (2008, p. 62):

[…] é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Entende-se como bens de patrimônio cultural imaterial as técnicas, conhecimentos, expressões, representações e os usos, assim como as ferramentas, espaços, artefatos e objetos que lhe são vinculados e que os grupos, as sociedades e, em determinadas situações, as pessoas admitem como parcela de seu bem cultural (BRASIL, 2010).

Para que tais bens culturais imateriais sejam protegidos, há uma ferramenta legal chamada de Registro dos Bens Culturais de origem imaterial, estabelecido pelo Decreto nº. 3.551 no ano de 2000, disciplinado pela Resolução nº. 001 de 2006, que descreve igualmente a respeito de um projeto especialmente direcionado para o assunto.

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